TECIDINHO ADIPOSO

Ele tinha adoração por gordinhas. Mas não qualquer gordinha, só aquelas cinturadas e com o resto das carnes farto. As muito gordas ele abominava, as sem cintura também, dizia que ambas perdiam a feminilidade, que pareciam pinos de boliche.
Quando encontrava uma gordinha da sua pontuação, seguia. Se estivesse de ônibus, descia. Se estivesse na rua, andava horas atrás dela, se esquivando em paradas, em bancas de revista, por trás das árvores e das pessoas. Não a deixava perceber que uns olhos cobiçosos a fitavam, de longe ou de perto. Se estivesse num shopping, ia olhando vitrines infinitamente, com ar de interessado e seguindo a sua presa com o canto do olho.
Era implacável e persistente na conquista. Dava um jeito de se aproximar, às vezes esbarrava de propósito com mil perdões, já emendando um papo para conseguir o celular ou o email, essas coisas. Se percebesse algum amolecimento, convidava pra um café, um lanche, um sorvete – nunca um chope, achava que o chope era muito íntimo, coisa de segundo encontro ou mais pra frente, a depender da resistência. Tinha cuidados ao se aproximar, a cidade estava muito perigosa e cheia de marginais e tarados, algumas lhe diziam depois para justificar porque não lhe deram confiança à primeira vista. Ele sabia esperar o momento certo da investida, tinha aprendido depois de anos a fio de ações malsucedidas.
Matias viu Luciana, pela primeira vez, no supermercado, na seção de congelados. Fazia três anos já, mas ele se lembrava nitidamente: a imagem lhe ficou como as daquelas mulheres das propagandas de cerveja. Estava com uma calça jeans meio esbranquiçada, pelo tempo ou pela moda mesmo, justa, uma camiseta azul com uma frase em inglês que ele não entendeu e sandálias. Pelo traje, devia morar por ali mesmo, porque presumiu que não sairia de casa para muito longe vestida assim. Cabelos longos e claros, pele também clara, olhos castanhos e seios fartos, o que ele percebeu depois de ficar na sua frente com a desculpa de pegar uma bandeja de filé de peito de frango (‘posso?’. Ela balbuciou um ‘à vontade’ sem olhar para ele, mais interessada em procurar o preço do nugget. ‘Obrigado’, ele emendou e ela fez que sim com a cabeça, depois saiu.). Ele a seguiu longamente com os olhos pelo supermercado, ela parecia sem pressa e passeava pelas seções: molhos, material de limpeza, sucos, enlatados. Não tinha carrinho, mas uma cesta que ia enchendo pacientemente. Matias era funcionário de uma marca de leite em pó, daqueles que ficam nos estabelecimentos arrumando as prateleiras, verificando estoques, vendo se o dono está atento às promoções, se o produto está bem visível. Esperou que ela fosse à seção do seu leite, mas ela não foi. Assim ficava difícil atalhar com uma conversa despropositada. Demorou o quanto pôde no supermercado, até o limite do prejuízo da sua rota de atendimentos. Luciana não tinha a menor pressa, parece. Ele pegou o capacete e saiu, olhando para trás.
Matias amou Luciana desde aquele primeiro encontro. Voltou muitas vezes àquele supermercado, deu com ela uma segunda vez, agora de saia, blusa preta, sapato alto (o que a deixava da altura dele), maquiada. Ia ou vinha do trabalho, era uma da tarde. Desta vez, esperou que ela saísse, viu o prédio onde entrou e marcou o apartamento. Era mesmo perto, como supunha. Dali a três dias, com a desculpa de procurar aluguel, foi ao prédio e conseguiu ver, na caixa do correio, o nome completo dela. Com o nome na memória, procurou-a no orkut, no facebook, achou, mandou convite, que ela nunca aceitou.
Ficou sabendo, no supermercado, que ela trabalhava numa butique do centro. Uma franquia de roupa de madame. Ficou de ir lá, foi, ela não estava. Tinha ido fazer uns pagamentos, ouviu a colega comentar. Na esquina da loja, já de capacete na cabeça, viu-a do outro lado da rua. Contornou, eufórico, o quarteirão, procurando uma desculpa pra entrar de novo na loja. Ia dizer que achava que tinha esquecido o celular.
- Desculpa, eu vi você no supermercado, um dia desses.
- Acho que foi mesmo. Eu vou sempre lá. 
- Eu entrego leite em pó pra eles (e apontou pra logomarca do leite no bolso da camisa grená). 
- Ahhh! Mas esse seu leite é bem carinho, viu?
- Mas é bom...
- Hum...mas tem melhores e mais baratos (falou, espirituosa; ele gostou do gracejo, podia facilitar uma aproximação...)
- E aí, achou o celular? Perguntaram lá de dentro, e a voz vinha se aproximando.
- Não, acho que devo ter deixado no comércio ali atrás, vou ver. E saiu, não antes de apertar a mão de Luciana, sorrir e dizer que esperava encontrá-la no supermercado mais vezes (‘eu tô sempre lá’, disse já perto da vitrine).
Um dia, Luciana recebeu uma caixa de leite em pó em casa. Uma caixa grande, duas dúzias  de latas, com um bilhete: “Talvez você mude de ideia quanto ao preço, depois de provar o sabor.” E um número de celular no outro lado do pedaço de folha chamex. 
Ela não ligou no mesmo dia, nem nas próximas semanas. Matias já tinha esquecido o episódio, quando seu celular tocou tarde da noite. Era ela pra agradecer.
- O leite é bom mesmo, viu? Eu estava errada na minha avaliação. Mas foi preciso comer um monte de lata pra me convencer...
- Era essa mesmo a intenção, ele todo solícito.
- Eu ia ligar antes, mas não deu.
- Ok. Ele não ia perguntar por que.
- Meu noivo chegou de viagem e passou esses dias aqui.
- Ah, ele disse entre surpreso e pesaroso. Não sabia que era noiva. 
- É porque não uso aliança. Decidimos não usar, somos contra essas convenções.
- Mas é pra agora? 
- Sim, final do ano. Ele está vindo pra cá, transferido do emprego.
- Hum...
- Bom, obrigada, de novo, pela caixa, tive de dividir com os vizinhos e o porteiro pra poder dar conta de tudo. Mas valeu a pena.
- Ok. 
- A gente se vê por aí.
- No supermercado, é mais provável.
- É, lá.
- Olha, eu gostei de você desde a primeira vez que te vi,  Matias falou num impulso.
- Eu sou noiva, cara. Sem chance.
- Ok.
Luciana desligou o celular antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa. Se tivesse continuado na linha, talvez o ouvisse confessar que, na verdade, tinha ficado hipnotizado por ela naquela gôndola de frangos congelados, que pensava nela todos os dias, que uma ou duas vezes tinha sonhado com ela, os dois na cama, ela nos braços dele gemendo e lhe dizendo coisas amorosas ao ouvido, que tinha acordado todo lambuzado nessas ocasiões, que ele casaria com ela, se ela quisesse deixar aquele noivo.
Uma terceira vez Matias viu Luciana no supermercado, dois dias depois daquele telefonema. A mesma roupa da segunda vez, indo para o trabalho – pois ela lhe disse, naquele encontro da loja, que só trabalhava à tarde, ‘horário corrido’. Estava com um pacote de macarrão na mão e escolhendo um molho de tomate. Um rapaz ao lado. Ele a viu da saída, ficou parado observando e, quando o rapaz pôs o braço sobre o ombro dela, ele se foi.
Mesmo noiva, Matias não conseguia deixar de pensar e desejar Luciana. Passava de moto na loja em que ela trabalhava, ficava parado, discretamente, na porta do cursinho em que estudava  (descobriu que ela estava estudando, à noite, pra concurso), passou a ir com mais frequencia ao supermercado para ver se, ‘coincidentemente’, cruzava com ela, ficava ‘de plantão’ perto do prédio para vê-la chegar ou sair de casa. 
Um dia o telefone dele tocou. Era Luciana. Com a voz embargada, talvez pelo choro, Luciana o convidou pra sair. Sim, naquela hora mesmo – ela disse, justificando a surpresa dele por serem duas da manhã. Ele poderia passar ‘agora’, que ela já estava pronta.
Ele passou. Luciana desceu de jeans, uma camiseta preta com a cara do Lennon e all star. Ele lhe deu o capacete, ela subiu e os dois partiram. 
- Pra onde?
- Pra onde você quiser.
Foram pra uma lanchonete ali perto. Ela contou que o noivo tinha ‘terminado tudo por email’, que descobriu que ele tinha outra na cidade onde trabalhava, que ele era um ‘idiota covarde’ e mais um monte de coisas. Chorou. Matias não dizia nada, só escutava Luciana falar. 
Na porta do prédio, quando Luciana já estava sem capacete, Matias disse ‘Eu te amo’. Luciana ficou atônita e ele se foi, fazendo o motor da moto roncar alto.
Três anos Matias dedicou-se a amar Luciana, para agora estar com ela ali, nua, ressonando ao seu lado, ele podendo, com calma e com senso de propriedade, acariciar todo o tecidinho adiposo dela em total harmonia, para nunca mais desejar mulher alguma.
Da lavra do professor Marcos Fábio.

2 Response to "TECIDINHO ADIPOSO"

  1. Rodrigues says:

    Nota de Repudio contra a Nova Gestão do Centro Academico de História na #UEMA de Imperatriz http://goo.gl/fb/6OJjM

    ajuda a divulgar tbm, obrigado

    Grilo says:

    Nota de Repudio contra a Nova Gestão do Centro Academico de História na #UEMA de Imperatriz http://goo.gl/fb/6OJjM

    ajudenso com a divulgação desta nota. obrigado

Tecnologia do Blogger | WordPress by Newwpthemes | Converted by BloggerTheme